quarta-feira, 15 de maio de 2013

Crónica Alferes José Manuel Vacas

 
Parti a 15 de Abril de 1966 no navio ‘Niassa’, integrado no Batalhão de Cavalaria 1883 – Companhia de Cavalaria 1535. Era alferes miliciano operacional, comandante de um grupo de combate. Íamos fazer operações de reconhecimento para evitar ataques ao aquartelamento e localizar as forças inimigas.

A nossa primeira operação especial foi em Maria Fernanda Zala. Dez dias. Fomos de viaturas pelo Bico do Pato (curvas e contracurvas onde normalmente éramos atacados), mas passámos sem problemas. Deixámos viaturas no aquartelamento de Zala e seguimos a pé para um morro, onde ficámos oito dias. Na véspera da partida fomos atacados com morteiros e rajadas de armas automáticas. Mas não houve baixas.

Na segunda operação especial – Canassala –, que durou oito dias, era necessário limpar a área entre a Beira Baixa e Nambuangongo, onde se começava a abrir a picada do Canacassala. Deixaram-nos na Beira Baixa e começámos a caminhar pelo trajecto onde iria ser aberta a nova picada. Fomos atacados logo no primeiro dia. Um dos guias ficou ferido. Pedimos apoio aéreo e continuámos. Ao fim do quarto dia, verificámos que o outro guia nos estava a enganar. Levava-nos para locais onde o capim era altíssimo. Não havia água e houve quem urinasse e, com um comprimido de Olozone, depois bebesse a urina.

A minha terceira operação especial – Maria Fernanda –, ao longo do rio Dange, prolongou--se meia dúzia de dias. Foi uma operação conjunta com sete companhias, incluindo comandos pára-quedistas e a actuação dos F-16 da Força Aérea. Saímos de Maria Fernanda em viaturas até à missão, onde começámos a seguir o rumo pré-estabelecido para a nossa companhia, enquanto as outras companhias avançavam por itinerários diferentes.

O primeiro ataque foi no primeiro dia, com fogo cerrado. Entretanto com estas caminhadas, o meu joelho inchava e provocava-me dores diabólicas.

No dia seguinte fomos avisados de que os F-16 iam bombardear algures à nossa frente. Cerca de duas horas após terem terminado os voos rasantes dos F-16, avançámos com a percepção de que estávamos numa zona perigosa. O meu grupo ia à frente da companhia.

Caminhávamos por um trilho no meio da floresta quando avistámos uma lavra junto ao rio Dange que terminava novamente na floresta. Dei ordens para as três G3 de cano reforçado ocuparem as primeiras posições, seguidas da MG, e entrámos na lavra em ‘bicha de pirilau’.

DOIS CAMARADAS MORTOS

Começou um tiroteio vindo de todo o lado, até de uma pequena ilha no Dange. Apanhados num sítio plano sem protecção, respondemos mas não conseguimos evitar que o Praxedes (de Águas de Moura) tivesse morte imediata. Uma bala perfurou-lhe o abdómen, roubando a vida ao melhor atirador de morteiros da companhia. Uma bala apanhou também Elísio Bravo (de Sesimbra). Entrou-lhe pelo orifício do ouvido esquerdo e ficou alojada no crânio. Faleceu dois dias depois, na véspera de Natal. Ficámos muito abalados.

Alguns dias mais tarde, já não aguentava as dores no joelho e segui para o Hospital de Luanda.

A segunda comissão que tive foi para mim uma segunda guerra, totalmente diferente. Fui para Cabinda, para chefe da secretaria do sector S, depois recebi ordem de marcha para Tomboco, para, na qualidade de oficial de reabastecimento, substituir o oficial que o comandante do Batalhão 1903 tinha dispensado. Depois fomos para Santo António do Zaire e, finalmente, Ambrizete, mês e meio antes de regressar a Portugal.

PERFIL

Nome: José Manuel Vacas

Comissões: Angola (1966/68)

Força: Batalhão de Cavalaria 1883 e 1903A

Actualidade: É casado e tem quatro filhos e seis netos. Aos 69 anos, é gerente comercial
Manuel Silva Vou acrescentar algo que acho faltar nesta descrição, e tentar corrigir algum esquecimento do nosso Alferes, reparei no 1º parágrafo que o nosso Alferes refere a operação Maria Fernanda - Zala, aqui penso que nós fomos ao Zala quando ainda aquartelávamos em Kicabo, vou descrever o trajeto de ida e volta, saímos de Kicabo em viaturas fomos pelo Caxito, Ambriz, Bela Vista, passámos pelo bico do Pato e curvas da morte em direção a Zala aqui ficaram as nossas viaturas enquanto fomos ocupar o Morro de Kiembo do Zala durante 8 dias após este tempo e que eu já descrevi noutra resenha regressamos ao Zala retomamos as nossas viaturas e fizemos o regresso a Kicabo mas não pelo mesmo trajeto, viemos de Zala, á mata da Madureira, morro da camionete vermelha, Nambuangongo, Onzo, Beira Baixa, Balacende e regresso ao Quartel em Kicabo, vou referir aqui que nestas caminhadas de Viatura passámos por locais de alto risco e que enumero, Bico do Pato, Curvas da Morte ao ir e Mata Madureira e Morro da Camionete Vermelha no regresso, passamos felizmente sem ser atacados mas recordo que nestes locais o nosso Comandante fez e bem com que 2 Grupos de combate fizessem o trajeto apeando das viaturas e um Grupo de cada lado da picada entrando pela mata dentro faziam a batida dessas zonas por forma a não dar espaço de manobra ao inimigo e os outros 2 grupos mantinham-se nas Viaturas, assim se fez esta perigosa viagem sem problemas, quanto á estadia no Kiembo eu já a descrevi como uma imprudência da minha parte.
   No que diz respeito á operação na Mata Canacassala, acrescento que para mim foi terrivel a falta de água, com aquele calor tórrido do norte de Angola, levando um cantil de água que bebi no 1º dia e na manhã do 2º dia, havia a informação que pelo fim do 2º dia aparecia uma hipotética Ribeira ou Lago para nos reabastecermos desse liquido tão precioso, mas a realidade foi outra, não encontramos água nenhuma, eu comecei a sentir a insulação, no sitio em que nos deitámos para dormir a noite do 2º para o 3º dia existiam algumas Bananeiras, com o cacimbo da noite formavam-se bolhas de água nas folhas largas da Bananeira então logo que se começa a fazer dia eu tento dobrar as folhas da Bananeira e fazendo escorrer as bolhas de agua acumuladas tentei assim molhar a boca que já começava a ter espumas provocadas pela sede, iniciamos a nossa marcha do 3º dia andando á corta mato pois o nosso Comandante e bem, não queria que utilizássemos os trilhos do inimigo, sem aparecer água eu e mais Camaradas começamos a entrar em desidratação e ao fim desse 3º dia veio um Helicopetero reabastecer ração de Combate, ao verificar o meu estado O nosso Comandante pediu a minha evacuação, mas como já tinham sido evacuados uns quantos o Comandante da operação disse para o nosso Capitão que não devia perder mais efetivos ao que o nosso Capitão retorquiu, no estado que este rapaz está é melhor evacua-lo porque o estado em que está não oferece condições para continuar, Cabe-me aqui o Meu agradecimento Ao hoje Coronel Brito E Faro, pois eu já não tinha as mínimas condições, começava a entrar em estado de alucinação e quando cheguei á enfermaria de Nambuangongo e me deram água para beber isto após me terem injetado penso que uma grande seringa de Vitaminas e quando me queria tirar a água pois provavelmente devia dosear a quantidade a beber eu agarrei com as forças que tinha o copo e não queria que mo tirassem, este episódio foi-me contado por um Camarada que também tinha sido evacuado um pouco ante de mim, depois no 4º dia já não estava no terreno mas sei que os meus Camaradas ao avistarem um qualquer lago provavelmente de água da chuvas foram atacados por um enxame de abelhas que picaram tanto e os fez sofrer que nem um Cristo, eu lá fiquei em Nambuangongo até ter uma Coluna Militar que me trouxe-se de volta a Kicabo, o resto os que foram até ao fim sabem o mau bocado que passaram.
 

Na Guerra!




NA GUERRA

« A Glória, esse Sol dos Mortos!»
                                    BALZAC

   Contam as crónicas dos velhos escritos da Cavalaria que no tempo das Legiões Romanas, que longe de Roma defenderam o império, ser tradição no final da batalha, o Centurião em frente da sua centúria coberta de sangue e suor, mandar partir as lanças e os gládios dos mortos, para parte dos mesmos serem enterrados com aqueles das Legiões que tinham caido!

  Diz ainda a lenda, que enquanto os mesmos eram enterrados, competia ao Centurião que em vida os tinha conduzido nos combates e nas pelejas, que fizessem o elogio fúnebre se, tal os mesmos fossem merecedores!

  Acabamos, Camaradas, esta nossa Comissão longe dos nossos, longe das nossas terras, sacrificando tudo, para que como outrora, Roma continue com o esplendor e a sua grandeza !

  Como o antigo Comandante das Legiões Romanas podemos confirmar que é verdade o que nos disseram, quando tivemos que partir para defender a terra, o Império e as gentes que necessitavam da nossa juventude, do nosso esforço e do sangue dos nossos mortos !

  Tudo isso é verdade e nós próprios o confirmamos muitas vezes.

  Temos, contudo, no final da peleja à nossa frente os cadáveres de dezassete companheiros nossos de ontem, que com a força do seu sangue jovem, quente e heróico engrossaram o húmusdesta terra que ficou mais fértil, aumentaram o viço das arvóres na floresta e tornaram mais verde o capimda anhara, pois é sangue generoso e jovem,

  Temos à nossa frente estes dezassete camaradas que longe da terra onde nasceram tombatam, sem o carinho de uma mãe ou o quente  abraço de um dos seus, alguns nas mais trágicas situações que a Guerra deparou aqueles que como nós se bateram no dia a dia, durante dois anos.

  Há entre eles , dois gloriosos Alferes, que nortearam as suas vidas pelo rumo de um ideal, que embora oposto na forna era convergente e sòlidamente estruturadona solidez do carácter, na generosidade da acção e na coerênciacom a ideia, que contagiou aqueles que comandaram,aqueles que com eles tiveram, deixando atrás de si um rasto de luz tão claro, tão definido e tão rápido, como uma estrela cadente, que na noite quente se desprendeu do Céu.

  Falar-vos destes dois Bravos é fácil, pois todos vós os conhecestes bem e sabeis como eu avaliar o mérito que eles tiveram e por mais brilhante que seja a minha descrição, fluent e forte seja o termo, ficaria aquém do valor que efectivamente tiveram estes dois chefes. É, contudo, fácil na medida em que a amizade, quente de Verão do qual nada mais resta do que as lágrimas a fraternidade que me uniu a qualquer um deles é forte e é sempre fácil falar de um Amigo, ainda que esse Amigo esteja morto !

  Quer um quer outro demostraram com o exemplo das suas vidas, e na abnegação, no estoicismo das suas mortes, as qualidades mais nobres e os mais altos paradigmas, que definem um Chefe, que como eles punha em primeiro lugar o exemplo das suas acções.

  Partiram desta vida estes dois Bravos, deixando tudo de uma esperança, tudo de um voto, tudo de uma saudade profunda que embacia os olhos e agrilhoa a alma.

  Deixaram um somatório de acções, pedestais distintos e salientos na estrada da Vida, marcas ímpares dos traços concretos que definem o HOMEM.

  Temos à nossa frente dois dos nossos camaradas que em vida foram Furrieis.

No silêncio da anhara os seus corações deixaram de bater depois de terem num instante uma vida plena, de terem pròdigamente semeado mocidade, generosidade, valentia e abnegação.

  Foram dois chefes e dois Amigos que se perderam.

  Foram duas esperanças que não mais florirão e sobretudo dois Homens  que tombaram, deixando da saudade um, um filho que se terá de criar sem o auxilio e o carinho do Pai que o gerou, o outro o idealismo e as quimeras sonhadas em noite escaldantes e sentidas de uma Mãe que lá longe chora.

  Temos ainda à nossa frente Amigos, treze esquifes de moços simples como vós sois que anònimamente quase despercebidos no meio da confusão da vida moderna, foram citados nos comunicados de Guerra, onde na frieza da sua expressão ùnicamente disseram – MORRERAM PELA PÁTRIA.

  Vós que com eles lidastes lado a lado, que no trilho lhes estendeste água do vosso cantil que lhes mitigou a sede, que como eles comungastes das mesmas alegrias e das mesmas apreenseões sabeis melhor do que ninguém o que foi a sua vida !

  Sabeis em pormenor, com a minúcia descoberta pelo entendido o eles valiam enquanto eles lutaram, quabto sofreram, quanto fizeram que nunca ficou escrito !

Sabeis como grande foi o seu último sacrificio e sabeis mais como foi a sua última lágrima !

  Nos silêncios dos vossos rostos tisnados e secos, onde as rugas já cavaram sulcos das agruras com que esta guerra vos marcou sentis distintamente ainda bater o coração de alguns deles.

  Dizei Amigos a toda a gente o que foi o seu sacrificio.

  Dizei Amigos a toda a gente o que foi a sua valentia e como extraordinárias foram as suas qualidades.

  Dizei Amigos a toda a gente a grandeza do seu valor !

  Parou há instantes a última batalha.

  No chão ainda há marcas do que foi a Guerra.

  No peito de alguns o sangue ainda não coalhou e a última lágrima, a lágrima grossa dos mortos aos vinte anos, ainda lhes escorre pelo rosto exangue.

Sejamos Irmãos, dignos destes Bravos que foram em vida definidos por números.

Glória aos que tombaram pela Pátria.

  Oremos Irmãos !

 



 
Transcrito pr Alberto David do Jornal o Dragão nº 5/Dezembro de 1966 

terça-feira, 14 de maio de 2013

Natal na Guerra (3)




26 de Dezembro de 1966
Quando se substituíam as munições dos carregadores e se limpavam convenientemente as armas, um soldado deixou disparar, fortuitamente, a sua arma.
A rajada matou três, e feriu mais cinco soldados.
Na enfermaria do Batalhão, os moribundos expiraram, os feridos gemeram e um dos médicos tentou, desesperadamente, reanimar um dos moribundos, em respiração boca-a-boca.
Indiferente à tragédia, num pequeno transistor, cantava-se o velho fado:
"Quando foram dizer à pobre mãe que o filho, lhe morrera lá na guerra..."
Um mês mais tarde, nos finais de Janeiro de 1967, para atacarem o mesmo objectivo do N'Galama-Piri, foram empenhadas:
13 Companhias de Atiradores;

1 Companhia de Paraquedistas;

1 Bateria de Artilharia 8.8;

Apoio Aéreo ao solo, assegurado com três parelhas de F-84 e várias parelhas de T-6.

O objectivo, suficiente para um pouco mais de uma dezena de homens, foi atacado, assim, por mais de mil e quinhentos homens.

Disseram os jornais da época ter sido um grande sucesso militar!

Nota do Autor:

– O diário do capitão, amareleceu e perdeu a pouca importância que alguma vez possa ter tido. Foi esquecido. Depois foi deitado ao lixo. Os herdeiros do capitão não gostavam de guerra e muito menos de África.

Oito anos mais tarde as armas mortíferas dos colonialistas, depois da "retirada a pé descalço" que foi a "exemplar descolonização", foram entregues aos nacionalistas. Serviram para que se matassem, uns aos outros, mais a cubanos e sul-africanos que entraram nas intermináveis batalhas, e que, décadas mais tardes, permitiram que continuasse a guerra civil.

Uma das folhas deste diário serviu para acondicionar e depois embarcar um dos milhares de caixote de munições que estavam a ser exportadas. Não se sabe, se para uma das muitas guerras nos países soberanos de África ou se para os cacos ensanguentados do que ficou dos povos desbaratados da Jugoslávia.

Aqui bem perto:

– Na Europa.

 



 

A coluna auto segue, em marcha muito lenta, sobre o barro pegajoso e vermelho da picada.

Cai uma viatura num dos buracos.

Os soldados montam automaticamente a segurança. Outros, água pelos joelhos, lama até aos olhos, ajudam a desatascar esta, mais aquela viatura que patina na lama.

Puxa daqui, empurra de acolá, o suor e o barro fundem-se numa crosta que lhes acentua os traços dos rostos quase imberbes.

– Ó pá solta o guincho dessa Berliet...

– Acelera um pouco... mais… mais… acelera menos... atolaste esta merda!!!

– És um nabo, ó maçarico!

– Maçarico, é a puta da tua mãe!

– Vá, agora... mete aqui uns ramos, para ver se esta merda arranca...

– Atenção à segurança! Atenção à segurança!

– Esta chocolateira já está safa. Anda lá agora tu, óh nabo!

– Isso... se acelerares certo e sem parar, essa coisa anda!

– Óh meu alferes, aquele sacana do Quirino está sempre a baldar-se.

– Olhem lá a segurança.

– Já estamos neste atoleiro há mais de duas horas.

– Éh pá, não deixes molhar a MG

– Já abriste a tua ração de combate?

– Os “turras” são uns gajos porreiros. Há tanto tempo que aqui estamos e ainda não chatearam!

– Quando chegarmos às palmeiras, as viaturas abrandam um pouco, e a malta salta em andamento. Você, que vai na testa da coluna, começa a saltar assim que passarmos o terreiro da antiga sanzala. Você, Marinho, diz aos furriéis para mandarem saltar os homens por equipas, e em numeração seguida. Cuidado com os disparos fortuitos ao saltar e a ver se não partem nenhuma G-3,[1] ao caírem. O ponto de reunião será junto ao rio, que está em baixo e a um morro de pedra que se distingue perfeitamente. Agora escutem com atenção: esta operação não é nenhum piquenique. Será tanto mais fácil conforme os cuidados que tivermos, e evitarmos erros. Os alferes passam novamente revista ao pessoal e viaturas. Boa sorte a todos. Zé, vai dizer lá à frente para começarem a andar.

Os dois grupos de combate reduzidos iniciam a progressão apeada no terreno controlado pelo inimigo. Agora tudo pode acontecer. A marcha a corta-mato é violenta e extenuante.

Um rapaz negro, de vinte e poucos anos, um guerrilheiro capturado, serve de guia. Parece conhecer bem o terreno. Ele e os soldados já são amigos de toda a vida.

Começou a subida, a poder de catana, de um monte de densa floresta. Ao chegar ao cimo, o capitão manda fazer o primeiro alto. A paragem será de três horas. O calor e a humidade são muito fortes.

– Hélder, dê uma volta ao seu grupo de combate para ver como estão os homens. Você, Marinho, faça o mesmo. Recomendem mais uma vez que isto não é para graças. Mandem as armas pesadas para o pé de mim, e o Madeira que traga a metralhadora e enfie a clareira daquele lado da encosta. Não há fogueiras para fazer petiscos com as rações de combate.

– Quer comer alguma coisa, mê capitão?

– Obrigado, Zé. Deixa aqui a ração, e vai chamar o nosso furriel das transmissões.

– Sim, mê capitão.

O furriel Alves Pereira chegou em seguida.

– Chamou, meu capitão?

– Alves Pereira, montem uma antena horizontal para ver se temos contacto.

– O.K., meu capitão.

– Mê capitão, quer um pão com omeleta de chouriço e ovo, que eu pedi ao cozinheiro p'ra arranjar?

– És uma máquina, Zé, dá-me dali o cantil.

As nuvens ameaçam chuva. A chuva é o grande aliado dos golpes de mão. Torna mais difícil a detecção da aproximação.

Eram quase quatro da tarde. No meio de uma mata muito densa, onde se ouvia já o ruído das águas revoltas e barrentas do Dange, foi montado o estacionamento para pernoitar. Os grupos de combate tomaram as precauções rotineiras, montando em estrela, os postos de escuta de sentinelas dobradas. Os homens em qualquer parte encontravam sempre forma de se instalarem o mais confortavelmente.

Foi novamente montada a antena horizontal do posto de rádio GRc-9. Do outro lado, no Comando, o posto estava em escuta permanente.




Natal na Guerra (2)

 

 
A chuva sempre forte continua a fustigar. Tamborila a chapa canelada de zinco a cobrir o posto de sentinela, alcandorado no centenário embondeiro. O motor do gerador da luz continua a roncar. Sempre forte e monótono. A alvorada ténue faz distinguir já a silhueta dos edifícios das casernas.
De repente, amanhece em África!
Bebemos uns copos, – largos! – como é costume nas vésperas das grandes operações. Avançaram até as reservas: – as garrafas de whisky que cada um tinha escondido nos seus quartos.
O tenente-capelão dava o gelo e a bênção para cada rodada.
Eram dez horas quando, meio tonto, entrei naquilo a que me tinha acostumado a chamar de meu quarto. O capitão da CCS roncava, como era costume. Às escuras deitei-me.
Penso que dormi umas duas horas.
Acordei com um terrível pesadelo. A chuva grossa cai desamparada sobre as folhas de zinco do barracão. De repente, parou. A cama foi ficando cada vez mais pequena. Os roncos do gordo capitão são cada vez maiores. O silêncio da África é absoluto. O calor é húmido e peganhento. A insónia, clara e deprimente. Como seriam os próximos dias?

Só Deus poderia saber. Esse Deus que há anos ignorara estava agora ali bem perto e eu quedava-me mudo, sem coragem para lhe falar e muito menos, pedir o que quer que fosse. Pareceria mal só me lembrar Dele quando me sentia à rasca!

O suor ficou gelado. Tenho frio em África!

Mas os soldados, os meninos grandes que eu desmamara? E as famílias que tínhamos deixado? E a Pátria que havia que defender? E a incerteza da batalha que teríamos todos de afrontar? Pelo menos para esses, Misericórdia Senhor!

E se eu morrer? É sempre trágico morrer-se aos vinte e seis anos!

Que frase mais idiota! Mas, vendo bem, pouca falta faria. O meu pai tomaria conta do rapaz e ela, nova e bonita, seguiria o seu caminho. Havia choros, recordações e a certeza de que teria morrido com dignidade. Ao menos isso! Fora esta a vida que escolhera. Eram estes os frutos que ela dava. Tudo menos ter ou revelar que, no fundo, o que tinha era medo. Só os perus morrem de véspera! Mas seria mesmo assim? E o malvado sono que não chega. A merda da cama está toda encharcada de suor.

Tenho medo. Levanto-me. Tenho de arrumar as minhas coisas. Se, por acaso... há que deixar tudo mais ou menos arrumado.

O gordo ressona e peida-se. Nunca fez cerimónia! É assim na caserna, – disse. De noite dorme com um pijama riscado, que julgo nunca ter sido lavado. De manhã veste a camisola interior, cavada e sem alças, que diz ser muito boa para prevenir constipações.

Parece que voltei às camaratas do colégio. Mas este nunca poderia ter lá andado. É velho demais. Sobretudo na alma. Não há dúvida: – podia ser meu pai! Rebola-se, ronca e sonha, e, amanhã, dirá que não conseguiu dormir e continuará a chatear-me porque as rações de combate não estão certas, e eu terei de pagar as que faltam no depósito do reabastecimento da sua, – dele – CCS. Ele pensa ser o dono da guerra. Se calhar, é mesmo! Pelo menos é o dono das rações de combate. Bem pode o Valente dizer-lhe que vem na ordem de operações, mas dali, do seu depósito de víveres, não sai nada sem requisição. Está dito e bonda!

Põe na tal requisição a soberana assinatura ou um estranho gatafunho como visto, e aponta, sempre com um lápis, – tirado da orelha, – no caderninho que trás no bolso da perna das ensebadas calças de serviço.

Já arrumei tudo. Afinal é muito menos do que pensava. Só falta atar o cordel nas malas, para depois lhe porem o lacre. Meses depois as embambas[1] chegarão ao meu pai, como está escrito nos papéis confidenciais da guerra que todos nós assinamos, por se acaso...

De repente, amanhece em África!

O motor da luz parou.

Natal na Guerra!




Na região dos Dembos a noite corre pesada. Choveu toda a noite; uma chuva contínua e grossa. A atmosfera está carregada de electricidade. A chuva tamborila nas latas onduladas que cobrem as casernas dos soldados e os outros edifícios.

Durante a noite, as sentinelas foram-se rendendo entre si, pelo simples processo de se despertarem uns aos outros. Sonolentos, num gesto automático e rotineiro, pegavam maquinalmente, na espingarda automática, que estava dependurada ao fundo da cama, e andando e bocejando, seguiam para o posto de sentinela.

À porta da caserna, a chuva torrencial batia-lhes no rosto. Só então acordavam. Voltavam atrás. Calçavam as botas, apertavam os atacadores, vestiam às avessas o poncho impermeável, com a parte de borracha para fora – só assim aquilo abrigava da chuva! – protegiam carinhosamente a arma e corriam para o embondeiro. Ai estava montado o posto de sentinela.

Um outro, que procedera de maneira idêntica, vinha completar o posto de sentinelas dobradas.

– Éh pá, chove como merda!

– Esta hora é a que mais me custa fazer. Estava a sonhar com umas gajas bestiais, quando aquele sacana do Gordinho me foi chamar!

– Óh Guerreiro, deixa-te de galgas. Não me adormeças com histórias! Hoje, em véspera de operação, estavas mas é a cagar-te com medo de o capitão te engatar. Que porra de guerreiro és tu?

– Não me "chates ", nem te ponhas para aí com bocas. Eu não tenho medo de nada. Se o capitão me não mandar p'rà guerra, é porque sabe que me dão ataques e vejo muito mal. Ele também precisa de um tipo de confiança, como eu, para tomar conta da caserna, enquanto vocês estão lá fora.

– Tu és é um "arame-farpado"!

Apalpando com os dedos a arma do camarada, continuou, com o seu sotaque arrastado de madeirense

– Olha pá… tens a bala na câmara?

– Atão nã havia de ter?

– Deixa lá ver mas é essa merda. – Sem que o outro opusesse qualquer resistência, tirou-lhe a arma da mão, sacou o carregador e, puxando a culatra atrás, fez saltar o cartucho da câmara, acrescentando: – Pega lá, não me fodas; mete o carregador no bolso. Segura bem essa porra da espingarda e aponta isso bem p'ra lá, pois o Diabo disparou uma tranca. Tu és muito nervoso e isso contagia a arma!

Acendeu um cigarro e, imediatamente, ocultou-o na mão.

– Não fumes, pá. Vem aí o sargento da ronda e dá uma bronca, a ti e a mim.

– Deixa lá. Quando eu o sentir apago a beata.

– Bem, afinal contas, ou não, esse sonho das gajas?

– Óh Madeira, tu és um gajo porreiro! Há aí uns sacanas com quem é impossível fazer guarda. Passam o tempo a implicar comigo, oferecem-me porrada e chateiam-me os cornos, porque eu gosto dos doces das rações de combate! Tu, lá na caixa, não tens lá uns docitos que me queiras dar?

– Já mo podias ter dito há mais tempo. Tenho lá uma quantidade enorme dessa merda, que deito fora.

– Para mim são muito bons!

– Não há dúvida. És um verdadeiro "arame farpado"! Se andasses na mata, nem os querias ver. Qualquer dia o capitão empurra-te para um desses PI's, onde se está parado uma semana… e então é que te vais fartar dos doces das rações! Olha que o gajo tem a mania de dizer que a guerra é para ser feita por toda a malta.

– Se ele me quiser mandar, eu alinho.

– Que remédio tens tu, pá!

– Amanhã, quer dizer, daqui por um bocado, tu alinhas p'rà operação, não é, Madeira?

Estendeu-lhe o maço de cigarros.

– Não obrigado. A mim, pá, só me saem duques! Ainda não falhei nenhuma. O capitão fode-me sempre! Como vai à bola comigo... – e imitando o falar do capitão – sô Madeira para aqui, sô Madeira para ali... – e o pobre do Madeira é quem se trama!

– Mas tu já foste louvado e vais ter o prémio Governador-Geral!

– Parece que sim. Noutro dia até mandei a folha da ordem de serviço p´rà minha, numa carta que me escreveu o Saraiva, o escriturário.

– Quantos anos tens, pá?

– Vinte e seis. Sou da idade do capitão. Quando estive no quartel de S. Martinho lá do Funchal desenfiei-me muitas vezes... e os cabrões ferravam comigo na “casa da rata”[1]. Como eu já era casado, uma vez pedi para me deixarem ir a casa, pois já não havia que comer. Pedi ao sorja[2] da Companhia, que me arranjasse uns dias de licença. O filho da puta não me desenrascou, e eu... pus-me ao caminho e marchei p´ra casa. Tinha lá muito que fazer! A minha, tinha tido naqueles dias um rapaz, que a ia matando. Os dias foram-se passando até que uma bela manhã os “cabeças de giz” da Polícia Militar foram-me lá buscar num jeep. Azar...

– E de tropa?

– Olha, já nem sei bem... talvez uns cinco, eu sei lá... e ainda tenho de terminar esta comissão! Vim por ser “correccional”. Mandaram-me escolher entre o barril do Forte de Elvas e isto aqui! Pelo menos foi isso que me disse o primeiro que me mobilizou. Agora que já cá estou, até nem me importo muito. Ando a pensar em por aqui ficar no final da tropa. Mando vir a patroa e os putos, e toca a viver aqui! Sempre é bem melhor do que lá na Madeira!

– Mas tu bebes demais, óh Madeira!

– Na nossa terra, a gente começa a tomar bebedeiras muito cedo. Era ainda um fedelho quando o meu pai me dava a provar da rija, a aguardente de cana lá da Madeira, sempre que a minha mãe m´o mandava chamar à venda, lá no Porto Moniz. Ai que saudades tenho da nossa aguardente de cana!

– Eu só posso beber coca-cola.... como me dão ataques ....

– Grande merda! Lá no Porto Moniz, há uma mulherzinha a quem davam também ataques... sabes que horas já são, Guerreiro?

– Devem estar a dar as cinco. Temos que “dominar esta pantera”[3] até que seja dia e nos venham render os gajos da ´CCS[4]. Já não deve faltar muito!

– E isso a ti que diferença faz? Nós vamos embora e tu vais para a caserna e metes os cornos na palha todo o dia.

– Isso é que era bom! Sempre que vocês vão p´rà mata, vou adir à CCS. O capitão é um “lateiro”, filho da puta. Passa o tempo a marrar comigo só porque sou um operacional. Depois vem o chato do major a engatar gajos p´ra irem trabalhar nas obras do poço que ele quer abrir ali na horta. O gajo é uma chaga que nem tu imaginas! Noutro dia, estava eu fechado na caserna a escrever um "bate-estradas"[5] a umas tipas que engatei nos anúncios do Notícias de Angola, – umas gajas que adoram ser madrinhas de guerra da malta –, quando o sacana, que anda sempre a meter o nariz em tudo quanto é canto, desatou às porradas à porta. Fez-me explicar mais de cem vezes, o que estava eu ali a fazer. Chateou-me a porca e, no fim, disse que me dava um grande “porradão”[6] se me voltava a encontrar ali desenfiado. E vê lá tu, pregou comigo, eu, um doente, a cavar e a tirar terra, toda a semana, nesse maldito poço. Fartei-me de lhe dizer que me davam ataques, mas o sacana cagou-se no assunto e não fez caso. Uma semana no poço! Filho da puta!

– Olha que sempre é bem melhor trabalhar no poço do que andar na mata. No poço sempre se pode fazer sorna!

– Óh Madeira, vocês hoje vão p´rà Maria Fernanda[7], não é verdade? Ouvi-o dizer ontem na tasca do civil. Aquilo é bem fodido!

– A mata é muito fechada e lá os “turras” têm força como o caralho!

– Éh pá... se te queres dormir um bocado encosta-te ali p´ra trás. Ai não chove. Se aparecer o sargento eu chamo-te, e não há problema.

– Tu deves estar é maluco! Assim que eu me dormisse, tu já estavas a ressonar. Depois estávamos os dois bem fodidos quando o furriel nos agarrasse a sonhar!

– Gramava que tu descansasses! Hoje tens de ir p´rà mata e ainda mais com a puta da MG às costas... deve ser pesada como um raio!

– P´ra mim dá igual. Começa mas é a contar lá essa merda do sonho!

– Foi um sonho bestial! Sonhei que estava na cama com cinco gajas muito boas... umas tipas “boazonas” lá na minha terra...



À memória do nosso Camarada,

VENÂNCIO MARINHO CRUZ,

Morto em combate em ANGOLA, em 1968,e condecorado, a Título Póstumo,com a Medalha de Valor Militar de Prata, com Palma.

A dança ia começar! Ia ter início a operação a fazer até ao fim do ano de 1966.

Mentalmente, o capitão da Companhia Charlie do Batalhão de Cavalaria, recordou os efectivos de que dispunha. Talvez três grupos de combate[1]. O que importava agora, era saber qual o objectivo inimigo que iriam atacar.

Calmamente, apagou o cigarro no improvisado cinzeiro feito de uma das latas das rações de combate, pregado na madeira do pré-fabricado, "ÁREA RESERVADA ".

O capitão das operações estava sentado à mesa de trabalho.

– Então vamos ter festa?
– Vamos fazer uma operação de Batalhão.
– Muito bem. Conte coisas.
– Vamos atacar um quartel inimigo. Situa-se na margem direita do Dange, para os lados da Fazenda Maria Fernanda. É um quartel do MPLA. Vamos ali à carta de situação para eu lhe mostrar o objectivo.

Atravessaram a sala até à parede tapada por uma cortina. O sargento auxiliar das operações afastou-a.

No plástico estavam assinaladas, com muitos círculos e triângulos vermelhos, as referencias dos quartéis e agrupamentos inimigos, já que ali não havia populações.

– Como você pode ver, aqui, no fundo deste rio, junto da foz com o Dange, tem o MPLA um quartel. Julga-se poderem lá estar cerca de trezentos “turras”, bem armados. Há notícias da presença de eventuais instrutores cubanos. Têm atacado em emboscadas, na estrada do Piri e na picada que vai da Maria Fernanda à Missão.

– É aquele quartel referido no último "perintrep[2]"? Diziam ser a maior concentração inimiga no Norte de Angola.

– É esse exactamente. Julgo contudo que, se o atacarmos de surpresa, iremos ter grande sucesso. Basta um pouco de sorte. Vamos empenhar na operação as três Companhias operacionais do Batalhão. Você, por ter a tropa mais descansada, fará o golpe de mão ao objectivo. A Alfa desce desde a picada da Missão, por este rio abaixo – apontava na carta – para dar tempo a que a sua tropa se aproxime do objectivo. Ao nascer do sol, no dia D, a aviação desencadeia um bombardeamento, competindo à Companhia Alfa impedir a retirada dos elementos inimigos que eventualmente pretendam vir a escapar-se pelo rio Dange. A Bravo constituirá de reserva do comando. O posto de comando será montado na fazenda Margarido, onde, como sabe, há a pista de aviação. Eu e o Comandante, iremos para lá durante a operação.

– Mas a distância da picada entre a Maria Fernanda e a Missão ao tal quartel inimigo é muito grande. Deve ser mais de um dia de caminho.

– Não há problema, pois a PIDE tem um prisioneiro que conhece bem a região. Você vai levá-lo como guia.

– Segundo li no "perintrep", todos os trilhos de acesso ao quartel estão armadilhados. Eles têm vigias sobre a picada e os trilhos.

– Parece que assim é. Você e a sua tropa vão ser lançados de noite. Quando o sol nascer já estarão infiltrados na mata e muito longe da picada. Resumindo: irão daqui para a Maria Fernanda em coluna auto. A Companhia Bravo incorpora-se na mesma até à Fazenda Margarido. Para garantir a eficiência das comunicações e guarnecer o posto intermédio de transmissões, um dos seus grupos de combate ficará na Missão. Sob o seu comando, os outros dois grupos de combate fazem o golpe de mão.

– Mas para aquele objectivo decisivo, não acha pouco só dois grupos de combate? Nós vamos atacar! Não vamos defender!

– Você sabe tanto quanto eu: quantos mais forem, maiores são as possibilidades de não ter sucesso no golpe de mão. O factor da surpresa aqui, é determinante. – Acendeu um cigarro e continuou: – No dia D menos um, de madrugada, cerca das quatro da manhã e já sem lua, a coluna auto parte da Maria Fernanda para a Missão. Vocês saltam das viaturas em marcha, de modo a não denunciarem o local do lançamento. Internam-se imediatamente na mata e, uma vez reagrupados, iniciam a marcha. Até aqui tem alguma dúvida?

– Não. Pode continuar.

– Como lhe disse, a Companhia Alfa também irá consigo até à Missão. Quando o sol nascer, inicia a progressão apeada nesta direcção – marcou, com o lápis dermatográfico, uma seta azul no transparente – enquanto o tal grupo de combate toma conta das viaturas, guarnece a posição e vai preparar e melhorar a posição defensiva para as transmissões. É possível que os “turras” venham a chatear com pequenas flagelações. Até será bom para si. Servirá de manobra de diversão. Há imensas probabilidades de não serem detectados.

– Não sou tão optimista. Depois se verá, como diria o cego...
– Como está realmente a sua Companhia no que diz respeito a efectivos?
– A malta está muito apalpada ainda da operação Quissonde... de qualquer forma, poderei arranjar dois grupos de combate, reduzidos, claros!
– Somente dois grupos? O que é feito do resto do pessoal da Companhia?
– Há gente no Hospital em Luanda e ainda não foram feitos os recompletamentos[3] desde que saímos de Lisboa. Mas para este tipo de acções nem todos servem. Há que fazer selecção e uma selecção, entre tão poucos, não garante lá muita qualidade, não acha?
– Os que não sirvam para ir ao golpe de mão podem ficar no grupo de combate que guarnece a Missão.
– Não é aí que está o problema, mas sim, na escolha daqueles que têm de ir comigo. Também não vou mandar para a Missão só pessoal que não possa resistir, pois tenho a certeza, diria que absoluta, de que irá haver “molho” de verdade. Não me passa pela cabeça pôr no posto intermédio de transmissões, fundamental para a manobra, só guarnecido por "bazarucos[4]"!
– Fará como entender. O problema é seu. A partir de amanhã teremos à nossa disposição, um avião DO-27 para o posto de comando. No dia D, ao amanhecer, quatro jactos farão um bombardeamento de ataque ao solo. Depois, como você já deve estar perto, fará imediatamente a exploração do sucesso. Pode até orientar e pedir o apoio de fogo que quiser. Os jactos são comandados pelo seu amigo major Brito. Acredite: vai ser um sucesso para si e para o Batalhão. Imagine a cara dos "ares condicionados" do Quartel-General em Luanda, quando souberem que nós, somente com o Batalhão, fomos capazes de tomar o grande quartel N'Galama Piri ao MPLA!

– Veremos depois. O terreno é muitíssimo acidentado e a vegetação não pode ser mais densa; nem se conseguem ver os aviões. As transmissões são outro problema. Nesta época de cacimbo tenho sérias dúvidas de que os jactos tenham tecto[5] logo de madrugada.

– Aqui tem o seu exemplar da ordem de operações. Não se esqueça de contactar o Migalhinhas por causa da sintonia de todos os rádios.

– Muito bem. Por quantos dias vai durar a operação?

– Estimamos quatro ou cinco dias, incluindo as marchas de ida e volta.

– Isso é que é optimismo! Na melhor das hipóteses regressaremos na véspera do Natal. Se houver um “atascanso” na picada ou coisa do género, arriscamo-nos a passar a consoada a ração de combate e o Natal aos tiros!

– Olhe, meu caro, isto é uma guerra. Não é uma colónia de férias. Tudo o que necessita saber está na ordem de operações. Resta perguntar ao Comandante se lhe quer dizer alguma coisa.

Dizendo isto, atravessou a sala, desviou a cortina, e entrou na pequena dependência, que servia de gabinete do coronel.

– Dá licença, meu comandante? Está aqui o comandante da Charlie. Recebeu já a ordem de operações para a operação "Alta Escola”.

O comandante assomou à porta.

– Boa tarde, capitão. Parece que o oficial de operações já lhe explicou tudo. Se tiver algum problema de logística, fale com o nosso major. Recomendo-lhe pontualidade na saída. Detesto atrasos.

– Farei por que haja pontualidade.

– Dá licença, meu comandante?

O padre capelão, sem esperar resposta, ia entrando. Esfregando as mãos, aproximou-se da mesa do Comandante.

– Há novidade, capelão?

– Disseram-me que vai haver uma operação muito grande, e vinha lembrar, que temos preparada a festa do Natal... se vão todos os homens que temos estado a ensaiar, não sei como irá ser...

Uma vez mais, os altos segredos da guerra tinham falhado. Lá fora já toda a gente sabia! O tenente capelão continuou:

– Se os rapazes da orquestra e os que têm estado a ensaiar não forem dispensados, julgo que não vai haver festa de Natal.

– Capelão, quem lhe disse que iria haver uma grande operação?

– Ai, meu capitão, toda a gente o sabe! A mim disse-mo o sacristão, por o ter ouvido a outros soldados na loja do Russo. Agora veja, quando aquele pateta o sabe... isto no fundo é uma grande família, meu comandante!

O capitão de operações reagiu:

– Assim não pode ser. Há aqui uma fuga de informação impressionante. Os nossos planos, a estas horas, já devem ser do conhecimento dos “turras”, com tantos assalariados que tem o civil! Isto assim não pode ser!

– É efectivamente uma grande maçada esta fuga do segredo!

Disse o comandante, sempre imperturbável; voltando-se para o capelão, acrescentou:

– Capelão, haverá festa de Natal e operações; não se preocupe! Mais alguma coisa?