quarta-feira, 15 de maio de 2013
Na Guerra!
NA GUERRA
« A Glória, esse Sol dos Mortos!»
BALZAC
Diz ainda a lenda, que enquanto os
mesmos eram enterrados, competia ao Centurião que em vida os tinha conduzido
nos combates e nas pelejas, que fizessem o elogio fúnebre se, tal os mesmos
fossem merecedores!
Acabamos, Camaradas, esta nossa
Comissão longe dos nossos, longe das nossas terras, sacrificando tudo, para que
como outrora, Roma continue com o esplendor e a sua grandeza !
Como o antigo Comandante das
Legiões Romanas podemos confirmar que é verdade o que nos disseram, quando
tivemos que partir para defender a terra, o Império e as gentes que
necessitavam da nossa juventude, do nosso esforço e do sangue dos nossos mortos
!
Tudo isso é verdade e nós próprios
o confirmamos muitas vezes.
Temos, contudo, no final da peleja à
nossa frente os cadáveres de dezassete companheiros nossos de ontem, que com a
força do seu sangue jovem, quente e heróico engrossaram o húmusdesta terra que
ficou mais fértil, aumentaram o viço das arvóres na floresta e tornaram mais
verde o capimda anhara, pois é sangue generoso e jovem,
Temos à nossa frente estes
dezassete camaradas que longe da terra onde nasceram tombatam, sem o carinho de
uma mãe ou o quente abraço de um dos
seus, alguns nas mais trágicas situações que a Guerra deparou aqueles que como
nós se bateram no dia a dia, durante dois anos.
Há entre eles , dois gloriosos
Alferes, que nortearam as suas vidas pelo rumo de um ideal, que embora oposto
na forna era convergente e sòlidamente estruturadona solidez do carácter, na
generosidade da acção e na coerênciacom a ideia, que contagiou aqueles que
comandaram,aqueles que com eles tiveram, deixando atrás de si um rasto de luz tão
claro, tão definido e tão rápido, como uma estrela cadente, que na noite quente
se desprendeu do Céu.
Falar-vos destes dois Bravos é fácil,
pois todos vós os conhecestes bem e sabeis como eu avaliar o mérito que eles
tiveram e por mais brilhante que seja a minha descrição, fluent e forte seja o
termo, ficaria aquém do valor que efectivamente tiveram estes dois chefes. É,
contudo, fácil na medida em que a amizade, quente de Verão do qual nada mais
resta do que as lágrimas a fraternidade que me uniu a qualquer um deles é forte
e é sempre fácil falar de um Amigo, ainda que esse Amigo esteja morto !
Quer um quer outro demostraram com
o exemplo das suas vidas, e na abnegação, no estoicismo das suas mortes, as
qualidades mais nobres e os mais altos paradigmas, que definem um Chefe, que
como eles punha em primeiro lugar o exemplo das suas acções.
Partiram desta vida estes dois
Bravos, deixando tudo de uma esperança, tudo de um voto, tudo de uma saudade profunda
que embacia os olhos e agrilhoa a alma.
Deixaram um somatório de acções,
pedestais distintos e salientos na estrada da Vida, marcas ímpares dos traços
concretos que definem o HOMEM.
Temos à nossa frente dois dos
nossos camaradas que em vida foram Furrieis.
No silêncio da anhara os seus corações deixaram de bater depois de terem
num instante uma vida plena, de terem pròdigamente semeado mocidade, generosidade,
valentia e abnegação.
Foram dois chefes e dois Amigos que
se perderam.
Foram duas esperanças que não mais
florirão e sobretudo dois Homens que
tombaram, deixando da saudade um, um filho que se terá de criar sem o auxilio e
o carinho do Pai que o gerou, o outro o idealismo e as quimeras sonhadas em
noite escaldantes e sentidas de uma Mãe que lá longe chora.
Temos ainda à nossa frente Amigos,
treze esquifes de moços simples como vós sois que anònimamente quase
despercebidos no meio da confusão da vida moderna, foram citados nos
comunicados de Guerra, onde na frieza da sua expressão ùnicamente disseram –
MORRERAM PELA PÁTRIA.
Vós que com eles lidastes lado a
lado, que no trilho lhes estendeste água do vosso cantil que lhes mitigou a
sede, que como eles comungastes das mesmas alegrias e das mesmas apreenseões
sabeis melhor do que ninguém o que foi a sua vida !
Sabeis em pormenor, com a minúcia
descoberta pelo entendido o eles valiam enquanto eles lutaram, quabto sofreram,
quanto fizeram que nunca ficou escrito !
Sabeis como grande foi o seu último sacrificio e sabeis mais como foi a sua
última lágrima !
Nos silêncios dos vossos rostos
tisnados e secos, onde as rugas já cavaram sulcos das agruras com que esta
guerra vos marcou sentis distintamente ainda bater o coração de alguns deles.
Dizei Amigos a toda a gente o que
foi o seu sacrificio.
Dizei Amigos a toda a gente o que
foi a sua valentia e como extraordinárias foram as suas qualidades.
Dizei Amigos a toda a gente a
grandeza do seu valor !
Parou há instantes a última
batalha.
No chão ainda há marcas do que foi
a Guerra.
No peito de alguns o sangue ainda não
coalhou e a última lágrima, a lágrima grossa dos mortos aos vinte anos, ainda
lhes escorre pelo rosto exangue.
Sejamos Irmãos, dignos destes Bravos que foram em vida definidos por números.
Glória aos que tombaram pela Pátria.
Oremos Irmãos !
Transcrito pr Alberto David do Jornal o Dragão nº 5/Dezembro de 1966
terça-feira, 14 de maio de 2013
Natal na Guerra (3)
26 de
Dezembro de 1966
Quando
se substituíam as munições dos carregadores e se limpavam convenientemente as
armas, um soldado deixou disparar, fortuitamente, a sua arma.
A
rajada matou três, e feriu mais cinco soldados.
Na
enfermaria do Batalhão, os moribundos expiraram, os feridos gemeram e um dos
médicos tentou, desesperadamente, reanimar um dos moribundos, em respiração
boca-a-boca.
Indiferente
à tragédia, num pequeno transistor, cantava-se o velho fado:
"Quando
foram dizer à pobre mãe que o filho, lhe morrera lá na guerra..."
Um mês
mais tarde, nos finais de Janeiro de 1967, para atacarem o mesmo objectivo do
N'Galama-Piri, foram empenhadas:
13
Companhias de Atiradores;
1
Companhia de Paraquedistas;
1
Bateria de Artilharia 8.8;
Apoio
Aéreo ao solo, assegurado com três parelhas de F-84 e várias parelhas de T-6.
O
objectivo, suficiente para um pouco mais de uma dezena de homens, foi atacado,
assim, por mais de mil e quinhentos homens.
Disseram
os jornais da época ter sido um grande sucesso militar!
Nota
do Autor:
– O
diário do capitão, amareleceu e perdeu a pouca importância que alguma vez possa
ter tido. Foi esquecido. Depois foi deitado ao lixo. Os herdeiros do capitão
não gostavam de guerra e muito menos de África.
Oito
anos mais tarde as armas mortíferas dos colonialistas, depois da "retirada
a pé descalço" que foi a "exemplar descolonização", foram
entregues aos nacionalistas. Serviram para que se matassem, uns aos outros,
mais a cubanos e sul-africanos que entraram nas intermináveis batalhas, e que,
décadas mais tardes, permitiram que continuasse a guerra civil.
Uma
das folhas deste diário serviu para acondicionar e depois embarcar um dos
milhares de caixote de munições que estavam a ser exportadas. Não se sabe, se
para uma das muitas guerras nos países soberanos de África ou se para os cacos
ensanguentados do que ficou dos povos desbaratados da Jugoslávia.
Aqui
bem perto:
– Na
Europa.
A coluna auto segue, em marcha muito lenta, sobre o barro pegajoso e
vermelho da picada.
Cai
uma viatura num dos buracos.
Os
soldados montam automaticamente a segurança. Outros, água pelos joelhos, lama
até aos olhos, ajudam a desatascar esta, mais aquela viatura que patina na
lama.
Puxa
daqui, empurra de acolá, o suor e o barro fundem-se numa crosta que lhes acentua
os traços dos rostos quase imberbes.
– Ó pá
solta o guincho dessa Berliet...
–
Acelera um pouco... mais… mais… acelera menos... atolaste esta merda!!!
– És
um nabo, ó maçarico!
–
Maçarico, é a puta da tua mãe!
– Vá,
agora... mete aqui uns ramos, para ver se esta merda arranca...
–
Atenção à segurança! Atenção à segurança!
– Esta
chocolateira já está safa. Anda lá agora tu, óh nabo!
–
Isso... se acelerares certo e sem parar, essa coisa anda!
– Óh
meu alferes, aquele sacana do Quirino está sempre a baldar-se.
–
Olhem lá a segurança.
– Já
estamos neste atoleiro há mais de duas horas.
– Éh
pá, não deixes molhar a MG
– Já
abriste a tua ração de combate?
– Os
“turras” são uns gajos porreiros. Há tanto tempo que aqui estamos e ainda não
chatearam!
–
Quando chegarmos às palmeiras, as viaturas abrandam um pouco, e a malta salta
em andamento. Você, que vai na testa da coluna, começa a saltar assim que
passarmos o terreiro da antiga sanzala. Você, Marinho, diz aos furriéis para
mandarem saltar os homens por equipas, e em numeração seguida. Cuidado com os
disparos fortuitos ao saltar e a ver se não partem nenhuma G-3,[1] ao caírem. O
ponto de reunião será junto ao rio, que está em baixo e a um morro de pedra que
se distingue perfeitamente. Agora escutem com atenção: esta operação não é
nenhum piquenique. Será tanto mais fácil conforme os cuidados que tivermos, e
evitarmos erros. Os alferes passam novamente revista ao pessoal e viaturas. Boa
sorte a todos. Zé, vai dizer lá à frente para começarem a andar.
Os
dois grupos de combate reduzidos iniciam a progressão apeada no terreno
controlado pelo inimigo. Agora tudo pode acontecer. A marcha a corta-mato é
violenta e extenuante.
Um
rapaz negro, de vinte e poucos anos, um guerrilheiro capturado, serve de guia.
Parece conhecer bem o terreno. Ele e os soldados já são amigos de toda a vida.
Começou
a subida, a poder de catana, de um monte de densa floresta. Ao chegar ao cimo,
o capitão manda fazer o primeiro alto. A paragem será de três horas. O calor e
a humidade são muito fortes.
–
Hélder, dê uma volta ao seu grupo de combate para ver como estão os homens.
Você, Marinho, faça o mesmo. Recomendem mais uma vez que isto não é para
graças. Mandem as armas pesadas para o pé de mim, e o Madeira que traga a
metralhadora e enfie a clareira daquele lado da encosta. Não há fogueiras para
fazer petiscos com as rações de combate.
– Quer
comer alguma coisa, mê capitão?
–
Obrigado, Zé. Deixa aqui a ração, e vai chamar o nosso furriel das
transmissões.
– Sim,
mê capitão.
O
furriel Alves Pereira chegou em seguida.
–
Chamou, meu capitão?
–
Alves Pereira, montem uma antena horizontal para ver se temos contacto.
–
O.K., meu capitão.
– Mê
capitão, quer um pão com omeleta de chouriço e ovo, que eu pedi ao cozinheiro
p'ra arranjar?
– És
uma máquina, Zé, dá-me dali o cantil.
As
nuvens ameaçam chuva. A chuva é o grande aliado dos golpes de mão. Torna
mais difícil a detecção da aproximação.
Eram
quase quatro da tarde. No meio de uma mata muito densa, onde se ouvia já o
ruído das águas revoltas e barrentas do Dange, foi montado o estacionamento
para pernoitar. Os grupos de combate tomaram as precauções rotineiras, montando
em estrela, os postos de escuta de sentinelas dobradas. Os homens em qualquer
parte encontravam sempre forma de se instalarem o mais confortavelmente.
Foi
novamente montada a antena horizontal do posto de rádio GRc-9. Do outro lado,
no Comando, o posto estava em escuta permanente.
Natal na Guerra (2)
A chuva sempre forte continua a fustigar. Tamborila a chapa canelada de
zinco a cobrir o posto de sentinela, alcandorado no centenário embondeiro. O
motor do gerador da luz continua a roncar. Sempre forte e monótono. A alvorada
ténue faz distinguir já a silhueta dos edifícios das casernas.
De
repente, amanhece em África!
Bebemos
uns copos, – largos! – como é costume nas vésperas das grandes operações.
Avançaram até as reservas: – as garrafas de whisky que cada um tinha escondido
nos seus quartos.
O tenente-capelão
dava o gelo e a bênção para cada rodada.
Eram
dez horas quando, meio tonto, entrei naquilo a que me tinha acostumado a chamar
de meu quarto. O capitão da CCS roncava, como era costume. Às escuras
deitei-me.
Penso
que dormi umas duas horas.
Acordei
com um terrível pesadelo. A chuva grossa cai desamparada sobre as folhas de
zinco do barracão. De repente, parou. A cama foi ficando cada vez mais pequena.
Os roncos do gordo capitão são cada vez maiores. O silêncio da África é
absoluto. O calor é húmido e peganhento. A insónia, clara e deprimente. Como
seriam os próximos dias?
Só
Deus poderia saber. Esse Deus que há anos ignorara estava agora ali bem perto e
eu quedava-me mudo, sem coragem para lhe falar e muito menos, pedir o que quer
que fosse. Pareceria mal só me lembrar Dele quando me sentia à rasca!
O suor
ficou gelado. Tenho frio em África!
Mas os
soldados, os meninos grandes que eu desmamara? E as famílias que tínhamos
deixado? E a Pátria que havia que defender? E a incerteza da batalha que teríamos
todos de afrontar? Pelo menos para esses, Misericórdia Senhor!
E se
eu morrer? É sempre trágico morrer-se aos vinte e seis anos!
Que
frase mais idiota! Mas, vendo bem, pouca falta faria. O meu pai tomaria conta
do rapaz e ela, nova e bonita, seguiria o seu caminho. Havia choros,
recordações e a certeza de que teria morrido com dignidade. Ao menos isso! Fora
esta a vida que escolhera. Eram estes os frutos que ela dava. Tudo menos ter ou
revelar que, no fundo, o que tinha era medo. Só os perus morrem de véspera! Mas
seria mesmo assim? E o malvado sono que não chega. A merda da cama está toda
encharcada de suor.
Tenho
medo. Levanto-me. Tenho de arrumar as minhas coisas. Se, por acaso... há que
deixar tudo mais ou menos arrumado.
O
gordo ressona e peida-se. Nunca fez cerimónia! É assim na caserna, – disse. De
noite dorme com um pijama riscado, que julgo nunca ter sido lavado. De manhã
veste a camisola interior, cavada e sem alças, que diz ser muito boa para
prevenir constipações.
Parece
que voltei às camaratas do colégio. Mas este nunca poderia ter lá andado. É
velho demais. Sobretudo na alma. Não há dúvida: – podia ser meu pai! Rebola-se,
ronca e sonha, e, amanhã, dirá que não conseguiu dormir e continuará a
chatear-me porque as rações de combate não estão certas, e eu terei de pagar as
que faltam no depósito do reabastecimento da sua, – dele – CCS. Ele pensa ser o
dono da guerra. Se calhar, é mesmo! Pelo menos é o dono das rações de combate.
Bem pode o Valente dizer-lhe que vem na ordem de operações, mas dali, do seu
depósito de víveres, não sai nada sem requisição. Está dito e bonda!
Põe na
tal requisição a soberana assinatura ou um estranho gatafunho como visto, e
aponta, sempre com um lápis, – tirado da orelha, – no caderninho que trás no
bolso da perna das ensebadas calças de serviço.
Já
arrumei tudo. Afinal é muito menos do que pensava. Só falta atar o cordel nas
malas, para depois lhe porem o lacre. Meses depois as embambas[1] chegarão ao
meu pai, como está escrito nos papéis confidenciais da guerra que todos nós
assinamos, por se acaso...
De
repente, amanhece em África!
O
motor da luz parou.
Natal na Guerra!
Na região dos Dembos a noite corre pesada. Choveu toda a noite; uma chuva
contínua e grossa. A atmosfera está carregada de electricidade. A chuva tamborila
nas latas onduladas que cobrem as casernas dos soldados e os outros edifícios.
Durante
a noite, as sentinelas foram-se rendendo entre si, pelo simples processo de se
despertarem uns aos outros. Sonolentos, num gesto automático e rotineiro,
pegavam maquinalmente, na espingarda automática, que estava dependurada ao
fundo da cama, e andando e bocejando, seguiam para o posto de sentinela.
À
porta da caserna, a chuva torrencial batia-lhes no rosto. Só então acordavam.
Voltavam atrás. Calçavam as botas, apertavam os atacadores, vestiam às avessas
o poncho impermeável, com a parte de borracha para fora – só assim aquilo
abrigava da chuva! – protegiam carinhosamente a arma e corriam para o
embondeiro. Ai estava montado o posto de sentinela.
Um
outro, que procedera de maneira idêntica, vinha completar o posto de sentinelas
dobradas.
– Éh
pá, chove como merda!
– Esta
hora é a que mais me custa fazer. Estava a sonhar com umas gajas bestiais,
quando aquele sacana do Gordinho me foi chamar!
– Óh
Guerreiro, deixa-te de galgas. Não me adormeças com histórias! Hoje, em véspera
de operação, estavas mas é a cagar-te com medo de o capitão te engatar. Que
porra de guerreiro és tu?
– Não
me "chates ", nem te ponhas para aí com bocas. Eu não tenho medo de
nada. Se o capitão me não mandar p'rà guerra, é porque sabe que me dão ataques
e vejo muito mal. Ele também precisa de um tipo de confiança, como eu, para
tomar conta da caserna, enquanto vocês estão lá fora.
– Tu
és é um "arame-farpado"!
Apalpando
com os dedos a arma do camarada, continuou, com o seu sotaque arrastado de
madeirense
– Olha
pá… tens a bala na câmara?
– Atão
nã havia de ter?
–
Deixa lá ver mas é essa merda. – Sem que o outro opusesse qualquer resistência,
tirou-lhe a arma da mão, sacou o carregador e, puxando a culatra atrás, fez
saltar o cartucho da câmara, acrescentando: – Pega lá, não me fodas; mete o
carregador no bolso. Segura bem essa porra da espingarda e aponta isso bem p'ra
lá, pois o Diabo disparou uma tranca. Tu és muito nervoso e isso contagia a arma!
Acendeu
um cigarro e, imediatamente, ocultou-o na mão.
– Não
fumes, pá. Vem aí o sargento da ronda e dá uma bronca, a ti e a mim.
–
Deixa lá. Quando eu o sentir apago a beata.
– Bem,
afinal contas, ou não, esse sonho das gajas?
– Óh
Madeira, tu és um gajo porreiro! Há aí uns sacanas com quem é impossível fazer
guarda. Passam o tempo a implicar comigo, oferecem-me porrada e chateiam-me os
cornos, porque eu gosto dos doces das rações de combate! Tu, lá na caixa, não
tens lá uns docitos que me queiras dar?
– Já
mo podias ter dito há mais tempo. Tenho lá uma quantidade enorme dessa merda,
que deito fora.
– Para
mim são muito bons!
– Não
há dúvida. És um verdadeiro "arame farpado"! Se andasses na mata, nem
os querias ver. Qualquer dia o capitão empurra-te para um desses PI's, onde se
está parado uma semana… e então é que te vais fartar dos doces das rações! Olha
que o gajo tem a mania de dizer que a guerra é para ser feita por toda a malta.
– Se
ele me quiser mandar, eu alinho.
– Que
remédio tens tu, pá!
–
Amanhã, quer dizer, daqui por um bocado, tu alinhas p'rà operação, não é,
Madeira?
Estendeu-lhe
o maço de cigarros.
– Não
obrigado. A mim, pá, só me saem duques! Ainda não falhei nenhuma. O capitão
fode-me sempre! Como vai à bola comigo... – e imitando o falar do capitão – sô
Madeira para aqui, sô Madeira para ali... – e o pobre do Madeira é quem se
trama!
– Mas
tu já foste louvado e vais ter o prémio Governador-Geral!
–
Parece que sim. Noutro dia até mandei a folha da ordem de serviço p´rà minha,
numa carta que me escreveu o Saraiva, o escriturário.
–
Quantos anos tens, pá?
–
Vinte e seis. Sou da idade do capitão. Quando estive no quartel de S. Martinho
lá do Funchal desenfiei-me muitas vezes... e os cabrões ferravam comigo na
“casa da rata”[1]. Como eu já era casado, uma vez pedi para me deixarem ir a
casa, pois já não havia que comer. Pedi ao sorja[2] da Companhia, que me
arranjasse uns dias de licença. O filho da puta não me desenrascou, e eu...
pus-me ao caminho e marchei p´ra casa. Tinha lá muito que fazer! A minha, tinha
tido naqueles dias um rapaz, que a ia matando. Os dias foram-se passando até
que uma bela manhã os “cabeças de giz” da Polícia Militar foram-me lá buscar
num jeep. Azar...
– E de
tropa?
–
Olha, já nem sei bem... talvez uns cinco, eu sei lá... e ainda tenho de
terminar esta comissão! Vim por ser “correccional”. Mandaram-me escolher entre
o barril do Forte de Elvas e isto aqui! Pelo menos foi isso que me disse o
primeiro que me mobilizou. Agora que já cá estou, até nem me importo muito.
Ando a pensar em por aqui ficar no final da tropa. Mando vir a patroa e os
putos, e toca a viver aqui! Sempre é bem melhor do que lá na Madeira!
– Mas
tu bebes demais, óh Madeira!
– Na
nossa terra, a gente começa a tomar bebedeiras muito cedo. Era ainda um fedelho
quando o meu pai me dava a provar da rija, a aguardente de cana lá da Madeira,
sempre que a minha mãe m´o mandava chamar à venda, lá no Porto Moniz. Ai que
saudades tenho da nossa aguardente de cana!
– Eu
só posso beber coca-cola.... como me dão ataques ....
–
Grande merda! Lá no Porto Moniz, há uma mulherzinha a quem davam também
ataques... sabes que horas já são, Guerreiro?
–
Devem estar a dar as cinco. Temos que “dominar esta pantera”[3] até que seja
dia e nos venham render os gajos da ´CCS[4]. Já não deve faltar muito!
– E
isso a ti que diferença faz? Nós vamos embora e tu vais para a caserna e metes
os cornos na palha todo o dia.
– Isso
é que era bom! Sempre que vocês vão p´rà mata, vou adir à CCS. O capitão é um
“lateiro”, filho da puta. Passa o tempo a marrar comigo só porque sou um
operacional. Depois vem o chato do major a engatar gajos p´ra irem trabalhar
nas obras do poço que ele quer abrir ali na horta. O gajo é uma chaga que nem
tu imaginas! Noutro dia, estava eu fechado na caserna a escrever um
"bate-estradas"[5] a umas tipas que engatei nos anúncios do Notícias
de Angola, – umas gajas que adoram ser madrinhas de guerra da malta –, quando o
sacana, que anda sempre a meter o nariz em tudo quanto é canto, desatou às
porradas à porta. Fez-me explicar mais de cem vezes, o que estava eu ali a
fazer. Chateou-me a porca e, no fim, disse que me dava um grande “porradão”[6]
se me voltava a encontrar ali desenfiado. E vê lá tu, pregou comigo, eu, um
doente, a cavar e a tirar terra, toda a semana, nesse maldito poço. Fartei-me
de lhe dizer que me davam ataques, mas o sacana cagou-se no assunto e não fez
caso. Uma semana no poço! Filho da puta!
– Olha
que sempre é bem melhor trabalhar no poço do que andar na mata. No poço sempre
se pode fazer sorna!
– Óh
Madeira, vocês hoje vão p´rà Maria Fernanda[7], não é verdade? Ouvi-o dizer
ontem na tasca do civil. Aquilo é bem fodido!
– A
mata é muito fechada e lá os “turras” têm força como o caralho!
– Éh
pá... se te queres dormir um bocado encosta-te ali p´ra trás. Ai não chove. Se
aparecer o sargento eu chamo-te, e não há problema.
– Tu
deves estar é maluco! Assim que eu me dormisse, tu já estavas a ressonar.
Depois estávamos os dois bem fodidos quando o furriel nos agarrasse a sonhar!
–
Gramava que tu descansasses! Hoje tens de ir p´rà mata e ainda mais com a puta
da MG às costas... deve ser pesada como um raio!
– P´ra
mim dá igual. Começa mas é a contar lá essa merda do sonho!
– Foi
um sonho bestial! Sonhei que estava na cama com cinco gajas muito boas... umas
tipas “boazonas” lá na minha terra...
À memória do nosso Camarada,
VENÂNCIO MARINHO CRUZ,
Morto em combate em ANGOLA, em 1968,e condecorado, a Título Póstumo,com a Medalha de Valor Militar de Prata, com Palma.
A
dança ia começar! Ia ter início a operação a fazer até ao fim do ano de 1966.
Mentalmente,
o capitão da Companhia Charlie do Batalhão de Cavalaria, recordou os efectivos
de que dispunha. Talvez três grupos de combate[1]. O que importava agora, era
saber qual o objectivo inimigo que iriam atacar.
Calmamente,
apagou o cigarro no improvisado cinzeiro feito de uma das latas das rações de
combate, pregado na madeira do pré-fabricado, "ÁREA RESERVADA ".
O
capitão das operações estava sentado à mesa de trabalho.
–
Então vamos ter festa?
–
Vamos fazer uma operação de Batalhão.
–
Muito bem. Conte coisas.
–
Vamos atacar um quartel inimigo. Situa-se na margem direita do Dange, para os
lados da Fazenda Maria Fernanda. É um quartel do MPLA. Vamos ali à carta de
situação para eu lhe mostrar o objectivo.
Atravessaram
a sala até à parede tapada por uma cortina. O sargento auxiliar das operações
afastou-a.
No
plástico estavam assinaladas, com muitos círculos e triângulos vermelhos, as
referencias dos quartéis e agrupamentos inimigos, já que ali não havia
populações.
– Como
você pode ver, aqui, no fundo deste rio, junto da foz com o Dange, tem o MPLA
um quartel. Julga-se poderem lá estar cerca de trezentos “turras”, bem armados.
Há notícias da presença de eventuais instrutores cubanos. Têm atacado em
emboscadas, na estrada do Piri e na picada que vai da Maria Fernanda à Missão.
– É
aquele quartel referido no último "perintrep[2]"? Diziam ser a maior
concentração inimiga no Norte de Angola.
– É
esse exactamente. Julgo contudo que, se o atacarmos de surpresa, iremos ter
grande sucesso. Basta um pouco de sorte. Vamos empenhar na operação as três
Companhias operacionais do Batalhão. Você, por ter a tropa mais descansada,
fará o golpe de mão ao objectivo. A Alfa desce desde a picada da Missão, por
este rio abaixo – apontava na carta – para dar tempo a que a sua tropa se
aproxime do objectivo. Ao nascer do sol, no dia D, a aviação desencadeia um
bombardeamento, competindo à Companhia Alfa impedir a retirada dos elementos
inimigos que eventualmente pretendam vir a escapar-se pelo rio Dange. A Bravo
constituirá de reserva do comando. O posto de comando será montado na fazenda
Margarido, onde, como sabe, há a pista de aviação. Eu e o Comandante, iremos
para lá durante a operação.
– Mas
a distância da picada entre a Maria Fernanda e a Missão ao tal quartel inimigo
é muito grande. Deve ser mais de um dia de caminho.
– Não
há problema, pois a PIDE tem um prisioneiro que conhece bem a região. Você vai
levá-lo como guia.
–
Segundo li no "perintrep", todos os trilhos de acesso ao quartel
estão armadilhados. Eles têm vigias sobre a picada e os trilhos.
–
Parece que assim é. Você e a sua tropa vão ser lançados de noite. Quando o sol
nascer já estarão infiltrados na mata e muito longe da picada. Resumindo: irão
daqui para a Maria Fernanda em coluna auto. A Companhia Bravo incorpora-se na
mesma até à Fazenda Margarido. Para garantir a eficiência das comunicações e
guarnecer o posto intermédio de transmissões, um dos seus grupos de combate
ficará na Missão. Sob o seu comando, os outros dois grupos de combate fazem o
golpe de mão.
– Mas
para aquele objectivo decisivo, não acha pouco só dois grupos de combate? Nós
vamos atacar! Não vamos defender!
– Você
sabe tanto quanto eu: quantos mais forem, maiores são as possibilidades de não
ter sucesso no golpe de mão. O factor da surpresa aqui, é determinante. –
Acendeu um cigarro e continuou: – No dia D menos um, de madrugada, cerca das
quatro da manhã e já sem lua, a coluna auto parte da Maria Fernanda para a
Missão. Vocês saltam das viaturas em marcha, de modo a não denunciarem o local
do lançamento. Internam-se imediatamente na mata e, uma vez reagrupados,
iniciam a marcha. Até aqui tem alguma dúvida?
– Não.
Pode continuar.
– Como
lhe disse, a Companhia Alfa também irá consigo até à Missão. Quando o sol
nascer, inicia a progressão apeada nesta direcção – marcou, com o lápis
dermatográfico, uma seta azul no transparente – enquanto o tal grupo de combate
toma conta das viaturas, guarnece a posição e vai preparar e melhorar a posição
defensiva para as transmissões. É possível que os “turras” venham a chatear com
pequenas flagelações. Até será bom para si. Servirá de manobra de diversão. Há
imensas probabilidades de não serem detectados.
– Não
sou tão optimista. Depois se verá, como diria o cego...
– Como
está realmente a sua Companhia no que diz respeito a efectivos?
– A
malta está muito apalpada ainda da operação Quissonde... de qualquer forma,
poderei arranjar dois grupos de combate, reduzidos, claros!
–
Somente dois grupos? O que é feito do resto do pessoal da Companhia?
– Há
gente no Hospital em Luanda e ainda não foram feitos os recompletamentos[3]
desde que saímos de Lisboa. Mas para este tipo de acções nem todos servem. Há
que fazer selecção e uma selecção, entre tão poucos, não garante lá muita
qualidade, não acha?
– Os
que não sirvam para ir ao golpe de mão podem ficar no grupo de combate que
guarnece a Missão.
– Não
é aí que está o problema, mas sim, na escolha daqueles que têm de ir comigo.
Também não vou mandar para a Missão só pessoal que não possa resistir, pois
tenho a certeza, diria que absoluta, de que irá haver “molho” de verdade. Não
me passa pela cabeça pôr no posto intermédio de transmissões, fundamental para
a manobra, só guarnecido por "bazarucos[4]"!
– Fará
como entender. O problema é seu. A partir de amanhã teremos à nossa disposição,
um avião DO-27 para o posto de comando. No dia D, ao amanhecer, quatro jactos
farão um bombardeamento de ataque ao solo. Depois, como você já deve estar
perto, fará imediatamente a exploração do sucesso. Pode até orientar e pedir o
apoio de fogo que quiser. Os jactos são comandados pelo seu amigo major Brito.
Acredite: vai ser um sucesso para si e para o Batalhão. Imagine a cara dos
"ares condicionados" do Quartel-General em Luanda, quando souberem
que nós, somente com o Batalhão, fomos capazes de tomar o grande quartel
N'Galama Piri ao MPLA!
–
Veremos depois. O terreno é muitíssimo acidentado e a vegetação não pode ser
mais densa; nem se conseguem ver os aviões. As transmissões são outro problema.
Nesta época de cacimbo tenho sérias dúvidas de que os jactos tenham tecto[5]
logo de madrugada.
– Aqui
tem o seu exemplar da ordem de operações. Não se esqueça de contactar o
Migalhinhas por causa da sintonia de todos os rádios.
–
Muito bem. Por quantos dias vai durar a operação?
–
Estimamos quatro ou cinco dias, incluindo as marchas de ida e volta.
– Isso
é que é optimismo! Na melhor das hipóteses regressaremos na véspera do Natal.
Se houver um “atascanso” na picada ou coisa do género, arriscamo-nos a passar a
consoada a ração de combate e o Natal aos tiros!
–
Olhe, meu caro, isto é uma guerra. Não é uma colónia de férias. Tudo o que
necessita saber está na ordem de operações. Resta perguntar ao Comandante se
lhe quer dizer alguma coisa.
Dizendo
isto, atravessou a sala, desviou a cortina, e entrou na pequena dependência,
que servia de gabinete do coronel.
– Dá
licença, meu comandante? Está aqui o comandante da Charlie. Recebeu já a ordem
de operações para a operação "Alta Escola”.
O
comandante assomou à porta.
– Boa
tarde, capitão. Parece que o oficial de operações já lhe explicou tudo. Se
tiver algum problema de logística, fale com o nosso major. Recomendo-lhe
pontualidade na saída. Detesto atrasos.
–
Farei por que haja pontualidade.
– Dá
licença, meu comandante?
O
padre capelão, sem esperar resposta, ia entrando. Esfregando as mãos,
aproximou-se da mesa do Comandante.
– Há
novidade, capelão?
–
Disseram-me que vai haver uma operação muito grande, e vinha lembrar, que temos
preparada a festa do Natal... se vão todos os homens que temos estado a
ensaiar, não sei como irá ser...
Uma
vez mais, os altos segredos da guerra tinham falhado. Lá fora já toda a gente
sabia! O tenente capelão continuou:
– Se
os rapazes da orquestra e os que têm estado a ensaiar não forem dispensados,
julgo que não vai haver festa de Natal.
–
Capelão, quem lhe disse que iria haver uma grande operação?
– Ai,
meu capitão, toda a gente o sabe! A mim disse-mo o sacristão, por o ter ouvido
a outros soldados na loja do Russo. Agora veja, quando aquele pateta o sabe...
isto no fundo é uma grande família, meu comandante!
O
capitão de operações reagiu:
–
Assim não pode ser. Há aqui uma fuga de informação impressionante. Os nossos
planos, a estas horas, já devem ser do conhecimento dos “turras”, com tantos
assalariados que tem o civil! Isto assim não pode ser!
– É
efectivamente uma grande maçada esta fuga do segredo!
Disse
o comandante, sempre imperturbável; voltando-se para o capelão, acrescentou:
–
Capelão, haverá festa de Natal e operações; não se preocupe! Mais alguma coisa?
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