À memória do nosso Camarada,
VENÂNCIO MARINHO CRUZ,
Morto em combate em ANGOLA, em 1968,e condecorado, a Título Póstumo,com a Medalha de Valor Militar de Prata, com Palma.
A
dança ia começar! Ia ter início a operação a fazer até ao fim do ano de 1966.
Mentalmente,
o capitão da Companhia Charlie do Batalhão de Cavalaria, recordou os efectivos
de que dispunha. Talvez três grupos de combate[1]. O que importava agora, era
saber qual o objectivo inimigo que iriam atacar.
Calmamente,
apagou o cigarro no improvisado cinzeiro feito de uma das latas das rações de
combate, pregado na madeira do pré-fabricado, "ÁREA RESERVADA ".
O
capitão das operações estava sentado à mesa de trabalho.
–
Então vamos ter festa?
–
Vamos fazer uma operação de Batalhão.
–
Muito bem. Conte coisas.
–
Vamos atacar um quartel inimigo. Situa-se na margem direita do Dange, para os
lados da Fazenda Maria Fernanda. É um quartel do MPLA. Vamos ali à carta de
situação para eu lhe mostrar o objectivo.
Atravessaram
a sala até à parede tapada por uma cortina. O sargento auxiliar das operações
afastou-a.
No
plástico estavam assinaladas, com muitos círculos e triângulos vermelhos, as
referencias dos quartéis e agrupamentos inimigos, já que ali não havia
populações.
– Como
você pode ver, aqui, no fundo deste rio, junto da foz com o Dange, tem o MPLA
um quartel. Julga-se poderem lá estar cerca de trezentos “turras”, bem armados.
Há notícias da presença de eventuais instrutores cubanos. Têm atacado em
emboscadas, na estrada do Piri e na picada que vai da Maria Fernanda à Missão.
– É
aquele quartel referido no último "perintrep[2]"? Diziam ser a maior
concentração inimiga no Norte de Angola.
– É
esse exactamente. Julgo contudo que, se o atacarmos de surpresa, iremos ter
grande sucesso. Basta um pouco de sorte. Vamos empenhar na operação as três
Companhias operacionais do Batalhão. Você, por ter a tropa mais descansada,
fará o golpe de mão ao objectivo. A Alfa desce desde a picada da Missão, por
este rio abaixo – apontava na carta – para dar tempo a que a sua tropa se
aproxime do objectivo. Ao nascer do sol, no dia D, a aviação desencadeia um
bombardeamento, competindo à Companhia Alfa impedir a retirada dos elementos
inimigos que eventualmente pretendam vir a escapar-se pelo rio Dange. A Bravo
constituirá de reserva do comando. O posto de comando será montado na fazenda
Margarido, onde, como sabe, há a pista de aviação. Eu e o Comandante, iremos
para lá durante a operação.
– Mas
a distância da picada entre a Maria Fernanda e a Missão ao tal quartel inimigo
é muito grande. Deve ser mais de um dia de caminho.
– Não
há problema, pois a PIDE tem um prisioneiro que conhece bem a região. Você vai
levá-lo como guia.
–
Segundo li no "perintrep", todos os trilhos de acesso ao quartel
estão armadilhados. Eles têm vigias sobre a picada e os trilhos.
–
Parece que assim é. Você e a sua tropa vão ser lançados de noite. Quando o sol
nascer já estarão infiltrados na mata e muito longe da picada. Resumindo: irão
daqui para a Maria Fernanda em coluna auto. A Companhia Bravo incorpora-se na
mesma até à Fazenda Margarido. Para garantir a eficiência das comunicações e
guarnecer o posto intermédio de transmissões, um dos seus grupos de combate
ficará na Missão. Sob o seu comando, os outros dois grupos de combate fazem o
golpe de mão.
– Mas
para aquele objectivo decisivo, não acha pouco só dois grupos de combate? Nós
vamos atacar! Não vamos defender!
– Você
sabe tanto quanto eu: quantos mais forem, maiores são as possibilidades de não
ter sucesso no golpe de mão. O factor da surpresa aqui, é determinante. –
Acendeu um cigarro e continuou: – No dia D menos um, de madrugada, cerca das
quatro da manhã e já sem lua, a coluna auto parte da Maria Fernanda para a
Missão. Vocês saltam das viaturas em marcha, de modo a não denunciarem o local
do lançamento. Internam-se imediatamente na mata e, uma vez reagrupados,
iniciam a marcha. Até aqui tem alguma dúvida?
– Não.
Pode continuar.
– Como
lhe disse, a Companhia Alfa também irá consigo até à Missão. Quando o sol
nascer, inicia a progressão apeada nesta direcção – marcou, com o lápis
dermatográfico, uma seta azul no transparente – enquanto o tal grupo de combate
toma conta das viaturas, guarnece a posição e vai preparar e melhorar a posição
defensiva para as transmissões. É possível que os “turras” venham a chatear com
pequenas flagelações. Até será bom para si. Servirá de manobra de diversão. Há
imensas probabilidades de não serem detectados.
– Não
sou tão optimista. Depois se verá, como diria o cego...
– Como
está realmente a sua Companhia no que diz respeito a efectivos?
– A
malta está muito apalpada ainda da operação Quissonde... de qualquer forma,
poderei arranjar dois grupos de combate, reduzidos, claros!
–
Somente dois grupos? O que é feito do resto do pessoal da Companhia?
– Há
gente no Hospital em Luanda e ainda não foram feitos os recompletamentos[3]
desde que saímos de Lisboa. Mas para este tipo de acções nem todos servem. Há
que fazer selecção e uma selecção, entre tão poucos, não garante lá muita
qualidade, não acha?
– Os
que não sirvam para ir ao golpe de mão podem ficar no grupo de combate que
guarnece a Missão.
– Não
é aí que está o problema, mas sim, na escolha daqueles que têm de ir comigo.
Também não vou mandar para a Missão só pessoal que não possa resistir, pois
tenho a certeza, diria que absoluta, de que irá haver “molho” de verdade. Não
me passa pela cabeça pôr no posto intermédio de transmissões, fundamental para
a manobra, só guarnecido por "bazarucos[4]"!
– Fará
como entender. O problema é seu. A partir de amanhã teremos à nossa disposição,
um avião DO-27 para o posto de comando. No dia D, ao amanhecer, quatro jactos
farão um bombardeamento de ataque ao solo. Depois, como você já deve estar
perto, fará imediatamente a exploração do sucesso. Pode até orientar e pedir o
apoio de fogo que quiser. Os jactos são comandados pelo seu amigo major Brito.
Acredite: vai ser um sucesso para si e para o Batalhão. Imagine a cara dos
"ares condicionados" do Quartel-General em Luanda, quando souberem
que nós, somente com o Batalhão, fomos capazes de tomar o grande quartel
N'Galama Piri ao MPLA!
–
Veremos depois. O terreno é muitíssimo acidentado e a vegetação não pode ser
mais densa; nem se conseguem ver os aviões. As transmissões são outro problema.
Nesta época de cacimbo tenho sérias dúvidas de que os jactos tenham tecto[5]
logo de madrugada.
– Aqui
tem o seu exemplar da ordem de operações. Não se esqueça de contactar o
Migalhinhas por causa da sintonia de todos os rádios.
–
Muito bem. Por quantos dias vai durar a operação?
–
Estimamos quatro ou cinco dias, incluindo as marchas de ida e volta.
– Isso
é que é optimismo! Na melhor das hipóteses regressaremos na véspera do Natal.
Se houver um “atascanso” na picada ou coisa do género, arriscamo-nos a passar a
consoada a ração de combate e o Natal aos tiros!
–
Olhe, meu caro, isto é uma guerra. Não é uma colónia de férias. Tudo o que
necessita saber está na ordem de operações. Resta perguntar ao Comandante se
lhe quer dizer alguma coisa.
Dizendo
isto, atravessou a sala, desviou a cortina, e entrou na pequena dependência,
que servia de gabinete do coronel.
– Dá
licença, meu comandante? Está aqui o comandante da Charlie. Recebeu já a ordem
de operações para a operação "Alta Escola”.
O
comandante assomou à porta.
– Boa
tarde, capitão. Parece que o oficial de operações já lhe explicou tudo. Se
tiver algum problema de logística, fale com o nosso major. Recomendo-lhe
pontualidade na saída. Detesto atrasos.
–
Farei por que haja pontualidade.
– Dá
licença, meu comandante?
O
padre capelão, sem esperar resposta, ia entrando. Esfregando as mãos,
aproximou-se da mesa do Comandante.
– Há
novidade, capelão?
–
Disseram-me que vai haver uma operação muito grande, e vinha lembrar, que temos
preparada a festa do Natal... se vão todos os homens que temos estado a
ensaiar, não sei como irá ser...
Uma
vez mais, os altos segredos da guerra tinham falhado. Lá fora já toda a gente
sabia! O tenente capelão continuou:
– Se
os rapazes da orquestra e os que têm estado a ensaiar não forem dispensados,
julgo que não vai haver festa de Natal.
–
Capelão, quem lhe disse que iria haver uma grande operação?
– Ai,
meu capitão, toda a gente o sabe! A mim disse-mo o sacristão, por o ter ouvido
a outros soldados na loja do Russo. Agora veja, quando aquele pateta o sabe...
isto no fundo é uma grande família, meu comandante!
O
capitão de operações reagiu:
–
Assim não pode ser. Há aqui uma fuga de informação impressionante. Os nossos
planos, a estas horas, já devem ser do conhecimento dos “turras”, com tantos
assalariados que tem o civil! Isto assim não pode ser!
– É
efectivamente uma grande maçada esta fuga do segredo!
Disse
o comandante, sempre imperturbável; voltando-se para o capelão, acrescentou:
–
Capelão, haverá festa de Natal e operações; não se preocupe! Mais alguma coisa?


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