Crónica Alferes José Manuel Vacas
Parti a 15 de Abril de 1966 no navio ‘Niassa’, integrado no Batalhão de Cavalaria 1883 – Companhia de Cavalaria 1535. Era alferes miliciano operacional, comandante de um grupo de combate. Íamos fazer operações de reconhecimento para evitar ataques ao aquartelamento e localizar as forças inimigas.
A nossa primeira operação especial foi em Maria Fernanda Zala. Dez dias. Fomos de viaturas pelo Bico do Pato (curvas e contracurvas onde normalmente éramos atacados), mas passámos sem problemas. Deixámos viaturas no aquartelamento de Zala e seguimos a pé para um morro, onde ficámos oito dias. Na véspera da partida fomos atacados com morteiros e rajadas de armas automáticas. Mas não houve baixas.
Na segunda operação especial – Canassala –, que durou oito dias, era necessário limpar a área entre a Beira Baixa e Nambuangongo, onde se começava a abrir a picada do Canacassala. Deixaram-nos na Beira Baixa e começámos a caminhar pelo trajecto onde iria ser aberta a nova picada. Fomos atacados logo no primeiro dia. Um dos guias ficou ferido. Pedimos apoio aéreo e continuámos. Ao fim do quarto dia, verificámos que o outro guia nos estava a enganar. Levava-nos para locais onde o capim era altíssimo. Não havia água e houve quem urinasse e, com um comprimido de Olozone, depois bebesse a urina.
A minha terceira operação especial – Maria Fernanda –, ao longo do rio Dange, prolongou--se meia dúzia de dias. Foi uma operação conjunta com sete companhias, incluindo comandos pára-quedistas e a actuação dos F-16 da Força Aérea. Saímos de Maria Fernanda em viaturas até à missão, onde começámos a seguir o rumo pré-estabelecido para a nossa companhia, enquanto as outras companhias avançavam por itinerários diferentes.
O primeiro ataque foi no primeiro dia, com fogo cerrado. Entretanto com estas caminhadas, o meu joelho inchava e provocava-me dores diabólicas.
No dia seguinte fomos avisados de que os F-16 iam bombardear algures à nossa frente. Cerca de duas horas após terem terminado os voos rasantes dos F-16, avançámos com a percepção de que estávamos numa zona perigosa. O meu grupo ia à frente da companhia.
Caminhávamos por um trilho no meio da floresta quando avistámos uma lavra junto ao rio Dange que terminava novamente na floresta. Dei ordens para as três G3 de cano reforçado ocuparem as primeiras posições, seguidas da MG, e entrámos na lavra em ‘bicha de pirilau’.
DOIS CAMARADAS MORTOS
Começou um tiroteio vindo de todo o lado, até de uma pequena ilha no Dange. Apanhados num sítio plano sem protecção, respondemos mas não conseguimos evitar que o Praxedes (de Águas de Moura) tivesse morte imediata. Uma bala perfurou-lhe o abdómen, roubando a vida ao melhor atirador de morteiros da companhia. Uma bala apanhou também Elísio Bravo (de Sesimbra). Entrou-lhe pelo orifício do ouvido esquerdo e ficou alojada no crânio. Faleceu dois dias depois, na véspera de Natal. Ficámos muito abalados.
Alguns dias mais tarde, já não aguentava as dores no joelho e segui para o Hospital de Luanda.
A segunda comissão que tive foi para mim uma segunda guerra, totalmente diferente. Fui para Cabinda, para chefe da secretaria do sector S, depois recebi ordem de marcha para Tomboco, para, na qualidade de oficial de reabastecimento, substituir o oficial que o comandante do Batalhão 1903 tinha dispensado. Depois fomos para Santo António do Zaire e, finalmente, Ambrizete, mês e meio antes de regressar a Portugal.
PERFIL
Nome: José Manuel Vacas
Comissões: Angola (1966/68)
Força: Batalhão de Cavalaria 1883 e 1903A
Actualidade: É casado e tem quatro filhos e seis netos. Aos 69 anos, é gerente comercial
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