A coluna auto segue, em marcha muito lenta, sobre o barro pegajoso e
vermelho da picada.
Cai
uma viatura num dos buracos.
Os
soldados montam automaticamente a segurança. Outros, água pelos joelhos, lama
até aos olhos, ajudam a desatascar esta, mais aquela viatura que patina na
lama.
Puxa
daqui, empurra de acolá, o suor e o barro fundem-se numa crosta que lhes acentua
os traços dos rostos quase imberbes.
– Ó pá
solta o guincho dessa Berliet...
–
Acelera um pouco... mais… mais… acelera menos... atolaste esta merda!!!
– És
um nabo, ó maçarico!
–
Maçarico, é a puta da tua mãe!
– Vá,
agora... mete aqui uns ramos, para ver se esta merda arranca...
–
Atenção à segurança! Atenção à segurança!
– Esta
chocolateira já está safa. Anda lá agora tu, óh nabo!
–
Isso... se acelerares certo e sem parar, essa coisa anda!
– Óh
meu alferes, aquele sacana do Quirino está sempre a baldar-se.
–
Olhem lá a segurança.
– Já
estamos neste atoleiro há mais de duas horas.
– Éh
pá, não deixes molhar a MG
– Já
abriste a tua ração de combate?
– Os
“turras” são uns gajos porreiros. Há tanto tempo que aqui estamos e ainda não
chatearam!
–
Quando chegarmos às palmeiras, as viaturas abrandam um pouco, e a malta salta
em andamento. Você, que vai na testa da coluna, começa a saltar assim que
passarmos o terreiro da antiga sanzala. Você, Marinho, diz aos furriéis para
mandarem saltar os homens por equipas, e em numeração seguida. Cuidado com os
disparos fortuitos ao saltar e a ver se não partem nenhuma G-3,[1] ao caírem. O
ponto de reunião será junto ao rio, que está em baixo e a um morro de pedra que
se distingue perfeitamente. Agora escutem com atenção: esta operação não é
nenhum piquenique. Será tanto mais fácil conforme os cuidados que tivermos, e
evitarmos erros. Os alferes passam novamente revista ao pessoal e viaturas. Boa
sorte a todos. Zé, vai dizer lá à frente para começarem a andar.
Os
dois grupos de combate reduzidos iniciam a progressão apeada no terreno
controlado pelo inimigo. Agora tudo pode acontecer. A marcha a corta-mato é
violenta e extenuante.
Um
rapaz negro, de vinte e poucos anos, um guerrilheiro capturado, serve de guia.
Parece conhecer bem o terreno. Ele e os soldados já são amigos de toda a vida.
Começou
a subida, a poder de catana, de um monte de densa floresta. Ao chegar ao cimo,
o capitão manda fazer o primeiro alto. A paragem será de três horas. O calor e
a humidade são muito fortes.
–
Hélder, dê uma volta ao seu grupo de combate para ver como estão os homens.
Você, Marinho, faça o mesmo. Recomendem mais uma vez que isto não é para
graças. Mandem as armas pesadas para o pé de mim, e o Madeira que traga a
metralhadora e enfie a clareira daquele lado da encosta. Não há fogueiras para
fazer petiscos com as rações de combate.
– Quer
comer alguma coisa, mê capitão?
–
Obrigado, Zé. Deixa aqui a ração, e vai chamar o nosso furriel das
transmissões.
– Sim,
mê capitão.
O
furriel Alves Pereira chegou em seguida.
–
Chamou, meu capitão?
–
Alves Pereira, montem uma antena horizontal para ver se temos contacto.
–
O.K., meu capitão.
– Mê
capitão, quer um pão com omeleta de chouriço e ovo, que eu pedi ao cozinheiro
p'ra arranjar?
– És
uma máquina, Zé, dá-me dali o cantil.
As
nuvens ameaçam chuva. A chuva é o grande aliado dos golpes de mão. Torna
mais difícil a detecção da aproximação.
Eram
quase quatro da tarde. No meio de uma mata muito densa, onde se ouvia já o
ruído das águas revoltas e barrentas do Dange, foi montado o estacionamento
para pernoitar. Os grupos de combate tomaram as precauções rotineiras, montando
em estrela, os postos de escuta de sentinelas dobradas. Os homens em qualquer
parte encontravam sempre forma de se instalarem o mais confortavelmente.
Foi
novamente montada a antena horizontal do posto de rádio GRc-9. Do outro lado,
no Comando, o posto estava em escuta permanente.


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