quarta-feira, 15 de maio de 2013

Na Guerra!




NA GUERRA

« A Glória, esse Sol dos Mortos!»
                                    BALZAC

   Contam as crónicas dos velhos escritos da Cavalaria que no tempo das Legiões Romanas, que longe de Roma defenderam o império, ser tradição no final da batalha, o Centurião em frente da sua centúria coberta de sangue e suor, mandar partir as lanças e os gládios dos mortos, para parte dos mesmos serem enterrados com aqueles das Legiões que tinham caido!

  Diz ainda a lenda, que enquanto os mesmos eram enterrados, competia ao Centurião que em vida os tinha conduzido nos combates e nas pelejas, que fizessem o elogio fúnebre se, tal os mesmos fossem merecedores!

  Acabamos, Camaradas, esta nossa Comissão longe dos nossos, longe das nossas terras, sacrificando tudo, para que como outrora, Roma continue com o esplendor e a sua grandeza !

  Como o antigo Comandante das Legiões Romanas podemos confirmar que é verdade o que nos disseram, quando tivemos que partir para defender a terra, o Império e as gentes que necessitavam da nossa juventude, do nosso esforço e do sangue dos nossos mortos !

  Tudo isso é verdade e nós próprios o confirmamos muitas vezes.

  Temos, contudo, no final da peleja à nossa frente os cadáveres de dezassete companheiros nossos de ontem, que com a força do seu sangue jovem, quente e heróico engrossaram o húmusdesta terra que ficou mais fértil, aumentaram o viço das arvóres na floresta e tornaram mais verde o capimda anhara, pois é sangue generoso e jovem,

  Temos à nossa frente estes dezassete camaradas que longe da terra onde nasceram tombatam, sem o carinho de uma mãe ou o quente  abraço de um dos seus, alguns nas mais trágicas situações que a Guerra deparou aqueles que como nós se bateram no dia a dia, durante dois anos.

  Há entre eles , dois gloriosos Alferes, que nortearam as suas vidas pelo rumo de um ideal, que embora oposto na forna era convergente e sòlidamente estruturadona solidez do carácter, na generosidade da acção e na coerênciacom a ideia, que contagiou aqueles que comandaram,aqueles que com eles tiveram, deixando atrás de si um rasto de luz tão claro, tão definido e tão rápido, como uma estrela cadente, que na noite quente se desprendeu do Céu.

  Falar-vos destes dois Bravos é fácil, pois todos vós os conhecestes bem e sabeis como eu avaliar o mérito que eles tiveram e por mais brilhante que seja a minha descrição, fluent e forte seja o termo, ficaria aquém do valor que efectivamente tiveram estes dois chefes. É, contudo, fácil na medida em que a amizade, quente de Verão do qual nada mais resta do que as lágrimas a fraternidade que me uniu a qualquer um deles é forte e é sempre fácil falar de um Amigo, ainda que esse Amigo esteja morto !

  Quer um quer outro demostraram com o exemplo das suas vidas, e na abnegação, no estoicismo das suas mortes, as qualidades mais nobres e os mais altos paradigmas, que definem um Chefe, que como eles punha em primeiro lugar o exemplo das suas acções.

  Partiram desta vida estes dois Bravos, deixando tudo de uma esperança, tudo de um voto, tudo de uma saudade profunda que embacia os olhos e agrilhoa a alma.

  Deixaram um somatório de acções, pedestais distintos e salientos na estrada da Vida, marcas ímpares dos traços concretos que definem o HOMEM.

  Temos à nossa frente dois dos nossos camaradas que em vida foram Furrieis.

No silêncio da anhara os seus corações deixaram de bater depois de terem num instante uma vida plena, de terem pròdigamente semeado mocidade, generosidade, valentia e abnegação.

  Foram dois chefes e dois Amigos que se perderam.

  Foram duas esperanças que não mais florirão e sobretudo dois Homens  que tombaram, deixando da saudade um, um filho que se terá de criar sem o auxilio e o carinho do Pai que o gerou, o outro o idealismo e as quimeras sonhadas em noite escaldantes e sentidas de uma Mãe que lá longe chora.

  Temos ainda à nossa frente Amigos, treze esquifes de moços simples como vós sois que anònimamente quase despercebidos no meio da confusão da vida moderna, foram citados nos comunicados de Guerra, onde na frieza da sua expressão ùnicamente disseram – MORRERAM PELA PÁTRIA.

  Vós que com eles lidastes lado a lado, que no trilho lhes estendeste água do vosso cantil que lhes mitigou a sede, que como eles comungastes das mesmas alegrias e das mesmas apreenseões sabeis melhor do que ninguém o que foi a sua vida !

  Sabeis em pormenor, com a minúcia descoberta pelo entendido o eles valiam enquanto eles lutaram, quabto sofreram, quanto fizeram que nunca ficou escrito !

Sabeis como grande foi o seu último sacrificio e sabeis mais como foi a sua última lágrima !

  Nos silêncios dos vossos rostos tisnados e secos, onde as rugas já cavaram sulcos das agruras com que esta guerra vos marcou sentis distintamente ainda bater o coração de alguns deles.

  Dizei Amigos a toda a gente o que foi o seu sacrificio.

  Dizei Amigos a toda a gente o que foi a sua valentia e como extraordinárias foram as suas qualidades.

  Dizei Amigos a toda a gente a grandeza do seu valor !

  Parou há instantes a última batalha.

  No chão ainda há marcas do que foi a Guerra.

  No peito de alguns o sangue ainda não coalhou e a última lágrima, a lágrima grossa dos mortos aos vinte anos, ainda lhes escorre pelo rosto exangue.

Sejamos Irmãos, dignos destes Bravos que foram em vida definidos por números.

Glória aos que tombaram pela Pátria.

  Oremos Irmãos !

 



 
Transcrito pr Alberto David do Jornal o Dragão nº 5/Dezembro de 1966 

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